Hoje trago-vos a mais
recente história jornalística, em Angola. Na verdade a ida a Luanda não teve
propósitos jornalísticos, mas acabaram por acontecer apontamentos que foram
dignos de reportagem, a partir de Luanda. Em causa estava a organização da Meia-Maratona
de Luanda, evento que mexeu com a cidade, que fez vibrar uma população que é,
maioritariamente, pobre, mas rica ao mesmo tempo nos seus costumes…
Pode parecer o lugar
comum onde todos os que visitam o território se escudam para relevar o
interesse no país, mas Angola é um país fantástico e onde a imprensa dita um
papel muito relevante, até porque muitos dos que habitam a cidade de Luanda
estão muito longe do acesso aos grandes meios da era digital…
O primeiro facto a relatar
é a chegada de avião à noite. Olha-se a cidade de cima e vê-se a sua imensidão
pela quantidade de casas improvisadas, enlatadas, que albergam o expressivo
número de quase 5 milhões de habitantes, cerca de metade da população
portuguesa oficialmente a viver em Portugal. E logo à chegada o cenário mostra uma
realidade que é frequente na cidade: as falhas de luz (além de falhas de água).
A intermitência das luzes mostra uma sobrecarga do sistema de abastecimento
energético, que obriga à utilização dos ruidosos geradores, alimentados a um
combustível que é, afinal, demasiado barato para não ser usado…
A chegada noturna a
Luanda faz lembrar que esta se trata claramente de uma ex-colónia portuguesa e
o sustento de muitas empresas nacionais na atualidade. No voo da TAAG, o avião
aterrou “sem espinhas”, o que fez levantar a força das palmas, as tais que
sucedem com o povo português e por quase nenhum outro. Ainda se o voo tivesse
realmente tido uma aterragem atribulada…
Continuam a faltar meios
locais e erguer a Meia-Maratona de Luanda fez-se à custa de empresas e
fornecedores portugueses, com todos os custos que estão inerentes a tal. Está
certo que o orçamento de um milhão de dólares assim o terá permitido, como está
certo que este tenha sido um investimento privado, mas em que outras causas
tais verbas são movimentadas?
Um forte constraste
existente com a Europa, relativamente a um evento, é a diferença entre
voluntários e jovens mercenários, sem que isso tenha de constituir um problema
em si mesmo. Os jovens acabariam por ser contratados para auxiliar a
organização das tarefas, em troco de uns dólares, levando ainda para casa
diferentes materiais de merchandising do evento. Aliás, estes materiais foram
ao longo da preparação do evento e do próprio evento, cobiçados por diversas
pessoas, mais ou menos jovens, de ambos os géneros sexuais. A expressão “amigo,
podes dar-me uma camisola” foi repetida vezes sem fim, uma imagem que me ficará
cravada durante muito tempo, num retrato que é ainda a Angola de hoje, com a
sua cultura bastante enraizada. E sim, trata-se de cultura, não quero entrar
pela via da discussão do que é a corrupção em Angola. Por certo as centenas de
garrafas de água retiradas do espaço da Organização no dia do evento terão sido
vendidas a preço de saldo no dia seguinte, nas ruas angolanas…E os mercados
paralelos, são traçados por várias retas de ação de cada um dos indivíduos que
buscam a sobrevivência, num país ainda muito dominado pela força militarizada
ou policial.
Se o continente africano
é quente, ao nível equatorial, Angola é geralmente quente na terra e no mar,
como o é na vertente sexual, das duas partes da barricada. Se um homem busca
ter duas ou três parceiras em diferentes regiões ou para diferentes situações
da vida, as mulheres acabam por não deixar de embalar para outros contactos
mais aproximados, tamanha é a relação desproporcionada no número de homens,
para tantas mulheres em busca de felicidade e de outra liberdade. Daí que o
hábito seja o alcançar da dupla-nacionalidade, o de aproveitar a presença do
“público” estrangeiro para novos Mundos, no fundo uma luta de sobrevivência que
tem a sua legitimidade, se analisada a realidade local…
E a realidade local, é um
facto, está-se a transformar, numa Luanda a tornar-se num misto entre Brasil
(aquele “calçadão…), Rússia (aquela sinalética para o trânsito…e o próprio
trânsito) e Mundo global em geral, onde se encaixará muito bem Portugal. O
alojamento num hotel afastado a cerca de 10 minutos do centro dos negócios em
Luanda, permite absorver a realidade das ruas, das gentes, onde o problema da
higiene da cidade se coloca a todo o momento. Por momentos Luanda também me fez
lembrar a cidade turca de Istambul, com dezenas de petroleiros e de plataformas
petrolíferas a mostrarem o que potencia também o incremento do capital angolano
para os grandes investimentos. Por exemplo a próxima sede da Assembleia
angolana é de uma grandiosidade que poderia perfeitamente fazer lembrar
Washington D.C.…
No meio disto ascende-se
à discussão da realidade existente entre o preço da gasolina (baixíssimo) e o
preço da cidade em geral, com refeições e hotelaria caros demais, para um povo
demasiado pobre. Esta incompatibilidade e aparente contradição é que permite a
Luanda combater Moscovo (Rússia) e Tóquio (Japão) na classificação de uma das
cidades mais caras do Mundo. Além de cara inclui-se o forte protecionismo à
economia local e à moeda, impedindo-se a livre saída de Kwanzas (moeda local)
no momento de abandonar o país por via aeroportuária…
Não menos importante é
compreender a alguma revolta angolana pela invasão estrangeira à sua economia. Infelizmente
a relação existente entre estrangeiros e locais é muitas vezes de uma
perspetiva top-down, tentando levar o espírito do colonialismo de volta ao
presente. Bem sabemos que há uma outra face da coroa que não existiu na história,
que é o facto de desta vez Angola estar também a apoderar-se da economia
portuguesa, num esforço que tem sido elevado ao mais alto estatuto
governamental e não foi por acaso a visita de Pires de Lima, ministro português
da Economia, a Angola no dia de aniversário de Eduardo dos Santos, eterno
presidente de Angola, assim o parece. Não deixa de ser curioso que tamanho peso
institucional que Eduardo Santos tem em Angola leve a que o nome escolhido para
o seu dorsal da meia-maratona tenha sido “Zé Du”, uma “alcunha” descontraída
demais para um presidente contraído em excesso.
A capacitação (ou falta
dela) é, assim, o problema de base em Angola. Desdobram-se as Universidades em
busca de parcerias com outras no estrangeiro, tenta-se que os angolanos a viver
em Portugal há vários anos regressem ao seu país, agora que está livre de
guerras ou guerrilhas. Tenta-se no fundo reerguer um país que aparentemente
busca um equilíbrio que demorará gerações a recuperar...
Foi em todo este cenário
que se desenrolou a primeira edição da Meia-Maratona Internacional de Luanda,
uma porta aberta para que se abra em África mais uma porta feliz de cooperação
entre comunidade internacional e angolanos, ultrapassados que estão os
problemas do passado e com relações diplomáticas muito mais abertas, pelo menos
com Portugal, mas também com potências do Mundo como Rússia, Estados Unidos da
América e China.
Só posso agradecer a
Luanda pela tamanha experiência de vida! (desta vez lamento a extensão do
artigo...mas não consegui ser mais sintético nas palavras...)